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Recuperação e Caráter Pessoal

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Os efeitos devastadores do vício na saúde física, emocional e no aspecto social foram meticulosamente estudados, mas pouca atenção tem sido dada ao seu impacto sobre o caráter e ao papel que a reconstrução do indivíduo desempenha no processo da recuperação.

Todas as doenças têm o potencial de distorcer o caráter. Mas o vício em álcool e drogas é único dentre os distúrbios médicos em que a essência única de uma pessoa é distorcida à medida que a doença progride. Ao reordenar radicalmente as prioridades pessoais, o vício acaba por sacrificar todos os outros compromissos e aspirações pessoais para atender a sua perversa necessidade mais elevada, que reduz o mundo e o torna vazio, deixando apenas uma necessidade insaciável e as dolorosas consequências.

A medicina do vício - na verdade, toda a medicina - está mal equipada para lidar com tais patologias de caráter e para preencher o vazio quando as drogas são removidas da vida de um paciente adicto. A pessoa que busca a recuperação do vício continua com o desafio: como escapar desse narcisismo induzido quimicamente dentro de uma cultura que não lhe oferece muitas alternativas.

Esse dilema é bem elucidado pelas distinções entre os termos remissão e recuperação. O primeiro termo é usado em medicina e pesquisa clínica para descrever a melhora do vício. Em suma, diz que o paciente uma vez que melhorou, não atende mais aos critérios diagnósticos para um transtorno por uso de substâncias químicas. A remissão não significa necessariamente que o uso de álcool ou outras drogas tenha cessado ou que todos os problemas relacionados tenham desaparecido, apenas que qualquer uso ou problema restante esteja agora abaixo do limiar do diagnóstico. A remissão elimina ou reduz os problemas de AOD para níveis subclínicos, mas pode deixar o paciente com uma sensação esmagadora de vazio e desconexão.

Em contraste, o termo recuperação, usado com mais frequência por aqueles com experiência de sobrevivência ao vício, é frequentemente usado para sugerir um processo de mudança muito além da remoção de álcool e outras drogas. Ele descreve o processo de ir além da remissão para se restabelecer, desenvolver profundidade de caráter e impulsionar a pessoa em direção a relacionamentos e contribuições para a sociedade. Em alguns círculos de recuperação, a remissão sem “recuperação” é até questionada como nível superficial de realização. Nesses círculos, a remissão é vista como a supressão temporária dos sintomas (um processo de subtração) e a recuperação é vista como o processo pelo qual a pessoa sobrevivente é transformada (processos de adição e multiplicação).

A remissão pode ser um ato de autoafirmação, mas a recuperação, essa conquista maior da saúde e da sociabilidade global, geralmente se dá por meio de abraçar suas próprias limitações e da transformação interior. Envolve a aceitação da imperfeição, a espiritualidade, a prática de restrição e moderação em nossos pensamentos, sentimentos e ações, encontrar um propósito para a vida. A recuperação nessa visão requer a substituição do “eu” por “nós” e a adoção de uma cultura de humildade, tolerância, interdependência e comunidade. Isso envolve mudar o foco das necessidades exclusivas de si para as necessidades do mundo, por exemplo, fazendo a pergunta “O que eu quero da vida?” Para “O que a vida quer de mim?”.

Consciência da imperfeição e limitação nos permite tornar-se "forte nos lugares fracos", usar adversidades de caráter para construir profundidade de caráter. Essa profundidade é muito mais do que a reconstrução do caráter como um culto à auto realização; é sobre o caráter a serviço das necessidades maiores do mundo. A coragem de enfrentar o vazio e a humildade de buscar os outros são os primeiros passos para nos enxergarmos, não como o centro do universo e, em vez disso, descobrir como nossa pequena história se encaixa em uma história muito maior.

Tal processo requer algo bem diferente do que entrar “em nós mesmos” através de terapias repletas de auto exploração intrapessoal e cujos objetivos visam aumentar o autoconhecimento, a autoestima e a auto expressão. Em vez disso, pode exigir dois processos bem diferentes: 1) cultivar o ceticismo, a humildade e a tolerância; e 2) sair de nós mesmos, por exemplo, buscando recursos, relacionamentos e atividades de serviço além do “eu”. A primeira estratégia requer o reconhecimento de nossa natureza defeituosa e o silenciamento do rugido de nosso próprio ego, na medida em que podemos realmente ouvir outras pessoas. Essa última estratégia envolve transformar a recuperação em uma jornada heroica que serve a um propósito maior.

Autor: William Whitte / Publicação com direitos reservados para Faces & Vozes da Recuperação no Brasil.

 

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