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Teoria da Porta de Entrada

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Tive a oportunidade de observar ao longo dos últimos vinte anos, mudanças no perfil sócio demográfico da população atendida por alguns serviços de tratamento/atenção à dependência química. Refiro-me especialmente aos indivíduos acolhidos nas Comunidades Terapêuticas (CTs). As CTs são serviços abertos, de adesão voluntária em ambiente residencial, voltados a pessoas que desejam e necessitam de um espaço protegido para auxiliar na recuperação da dependência do álcool e/ou outras drogas, com programas que duram geralmente entre 6 e 12 meses.

Me refiro a um universo de aproximadamente 2.000 unidades distribuídas por todo o país, que acolhem uma média de 30 a 50 indivíduos cada e empregam ao total, cerca de 10.000 trabalhadores. Boa parte destes, dependentes que se recuperaram nas próprias CTs. São números difíceis de serem ignorados.No decorrer destes anos, não foram só as questões relativas aos elementos ou problemas sociais e demográficos destes indivíduos que adquiriram um novo “colorido”. Seu histórico de consumo de substâncias psicoativas, idade de experimentação destas e as drogas que isoladamente mais motivam a procura por ajuda, também compuseram ao longo do tempo, um novo cenário.Minhas impressões iniciais, obtidas a partir da simples observação, encontraram apoio quando há pouco mais de dois anos elaborei um trabalho acadêmico tendo como campo de pesquisa uma das Comunidades Terapêuticas precursoras deste modelo no Brasil, localizada em Campinas, interior de São Paulo. Os resultados do trabalho demonstraram que hoje podemos observar um público sobretudo masculino, com pouco suporte social, sem vínculos empregatícios ou atividades de geração de renda, baixa escolaridade, problemas judiciais ligados aos atos cometidos em função da manutenção do uso de substâncias, idades de experimentação cada vez mais precoces e uma alta frequência de usuários de crack, cocaína e de múltiplas drogas, superior à de usuários de álcool.Ao mesmo tempo, observa-se um padrão de comportamento, uma espécie de “escalada” no uso de substâncias, a qual o indivíduo inicia pelas drogas lícitas e portanto de uso mais tolerado e de menor impacto (tabaco e álcool), culminando com o uso de drogas ilícitas e de maior potencial de abuso (cocaína e crack). Estes achados coincidem com as constatações de estudos já publicados e corroboram com a ideia da “Porta de Entrada”. Muitas vezes contestada, esta hipótese defende que os indivíduos iniciam precocemente sua incursão ao mundo das substâncias psicoativas com o uso das drogas lícitas, ou se ilícitas, aquelas tidas como “drogas leves”, entre estas, sobretudo a maconha. Assim, estas funcionariam como a “Porta de Entrada” de uma trajetória que os levaria ao uso das drogas chamadas “pesadas”, ou com um maior potencial para causar problemas e levar à dependência.

Diante disto, pode-se afirmar que a constatação do uso cada vez mais precoce das diversas substâncias, favorece o desenvolvimento de quadros mais graves e complexos de dependência, nos quais provavelmente será observado um maior comprometimento psicológico, social e cognitivo dos indivíduos, a exemplo do perfil encontrado hoje nas CTs. Além disto, torna o processo de recuperação mais desafiador e desta forma, possivelmente mais dispendioso e sujeito a um maior número de episódios de tratamento e intervenções.

Acredito que tais constatações estejam estreitamente relacionadas a ausência de políticas de controle eficazes, combinadas à grande oferta de substâncias psicoativas, sobretudo as lícitas, ocasionando maior acesso a estas e consequentemente o aumento dos problemas relacionados ao seu consumo. 

Desta forma, torna-se imperativo o implemento de programas de prevenção, sobretudo no âmbito escolar, considerando que a grande maioria dos entrevistados durante o trabalho citado frequentou a escola em algum período da vida. Estes programas, com o objetivo final postergar a idade de experimentação de álcool e outras drogas certamente é uma importante, senão uma das principais estratégias para se intervir em relação aos fatos aqui expostos.

Matheus Leite Praça - Psicólogo | Especialista em Dependência Química – UNIAD/UNIFESP - Em Recuperação a Longo Prazo

 

 

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