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A luta contra o estigma

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Nos dias de hoje, alguns conceitos e práticas que estão sendo amplamente discutidos, estudados e revisados, podem ser facilmente confundidos com questões de senso comum, falas contraditórias e falta de vergonha na cara. Nossa sociedade vive uma polarização das ideias e uma aparente falta de limites, coerções e exemplos de correção. Rapidamente a espada das antigas cruzadas, as fogueiras santas e as batalhas em nome de alguém, são retomadas como um soro eficaz e uma espécie de cura daquilo que para o modelo vigente não deu certo, seja no individuo, no grupo ou no aspecto amplo da macro sociedade.

O temporário mal funcionamento do cérebro, da psique e das relações sociais depois de anos de uso de drogas, pode ser confundido com má vontade, falta de fé e defeitos de caráter. Um espaço de acolhimento e tratamento pode ser confundido com um lugar de penitência, sacrifícios e autoflagelamento para a remissão dos pecados e das profanações da alma. Discursos antigos e retrógrados podem ser confundidos com autoridade e sabedoria.

Uma boa abordagem para o tratamento de uma doença deve possuir um bom projeto terapêutico, ter apoio daqueles que fazem parte do pensamento estratégico e operacional, possuir bons profissionais que conheçam o assunto, ter uma perspectiva clara do que é a doença e debruçar-se sobre as evidências para construir o melhor modelo e método para a cura.

Isso sem dúvida aproximará o poder público, o financiamento e trará ao longo dos anos a possibilidade de que mais pessoas de diferentes classes sociais possam acessar gratuitamente esse tratamento. No caso dos dependentes químicos isso já tem acontecido, seja por meio do que está ou até ontem estava previsto na política nacional de drogas e em outras fontes alternativas de tratamento para a doença.

Já que estou tocando no assunto da doença, vale lembrar que os dependentes químicos enfrentam diariamente uma luta contra o estigma, que os colocam numa situação dicotômica entre a doença e a deficiência moral. Essa é uma luta árdua e muito dura para quem carrega isso.

Vou lhes dar o exemplo das pessoas que inicialmente sofreram com a AIDS e que sofrem até hoje. No início quando essa doença foi diagnosticada, a condição desses doentes era de preconceito e um estigma muito forte de imoralidade. A AIDS era apontada como doença de homossexuais, usuários de drogas, pecadores, prostitutas e outros grupos.

Com o tempo percebeu-se que não se tratava disso, que não existe um grupo de risco e sim situações de risco, onde qualquer pessoa que decidir não se proteger durante o ato sexual ou compartilhamento de seringas, estaria sujeita a contrair o vírus. Nesse caso a ciência virou o jogo, classificou a doença, descobriu o tratamento e hoje depois de muito investimento, temos países como o Brasil que é uma referência para o cuidado com essa doença.

 A dependência química atravessa um momento muito parecido com esse e muitas pessoas e profissionais se questionam qual é a melhor abordagem de tratamento. Chega sem dúvida o momento onde as cabeças pensantes precisam juntar-se e levantarem o maior número de questões sobre o assunto, em seguida sistematizar o pensamento e produzir grande quantidade de evidências para definir e redefinir novas e velhas intervenções.

Hoje, alguns espaços de tratamento para a Dependência Química, quase que em carreira solo, apresentam de 40 a 50% de conclusão dos seus projetos terapêuticos individuais. Até 35% de sucesso após um ano dessa conclusão, alguns seguindo a lógica da abstinência. Superando dados de amostras relatadas na literatura mundial.

Isso se dá pela evidência de uma construção coletiva do pensamento de diversos atores que trabalham juntos e que não agem em nenhum momento de forma autoritária e unilateral, principalmente nas decisões.

Porém, infelizmente ainda não falo da maioria, determinadas abordagens reforçam o estigma, ferem os direitos das pessoas e maltratam aqueles que o tempo todo deveriam estar sendo motivados a desenvolverem sua autonomia, auto-gestão, autocrítica e tornarem-se protagonistas de suas vidas.

Nesses espaços as pessoas deveriam trabalhar com empatia, autenticidade, conceitos concretos, calor humano e acolhimento fraterno. Também deveriam gerenciar crises, problemas de saúde, problemas de relacionamento, questões familiares, crises de abstinência, fissuras, quadros de psicose tóxica, estados depressivos e inserir o indivíduo em uma cultura maciça de recuperação, ajudando todos a entenderem, principalmente, que algumas dessas coisas não se curam somente com oração e trabalho.

Autor: Juliano Santos, Psicólogo - Gestor dos Programas de Recuperação do Instituto Padre Haroldo

 

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