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Dependência Química: Moral X Doença

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O uso de bebidas alcoólicas e outras substâncias psicoativas acompanha a humanidade desde os seus primórdios. Sua presença assumiu múltiplas formas e significados em diferentes sociedades e momentos da história. Entretanto no senso comum, o pensamento simplista e pré-concebido que avalia a gênese e a manutenção da dependência química como uma escolha pessoal, resiste através dos séculos. Este Modelo Moral ainda vigente estigmatiza o dependente, retarda seu pedido de ajuda, interfere no seu processo de recuperação e por muitas vezes dificulta sua reinserção social.

O Modelo de Doença para o campo do consumo de álcool foi defendido desde o século XIX por alguns autores. Essa proposta seria um caminho para o tratamento cientificamente embasado e fazia oposição à estrutura de pensamento e valores imposta anos antes à Europa pelo Cristianismo, que condenava e considerava pecado os comportamentos aberrantes e os excessos. Naturalmente, o hábito da embriaguez e os problemas relacionados ao consumo de álcool foram desaprovados por esta estrutura. De acordo com o clero até então, o pecador teria o poder de se arrepender e, contando apenas com orações e determinação poderia modificar seu comportamento, sem recorrer a um médico.
A partir do século XX, começou a ser definido o conceito de dependência química como uma doença causada por alterações no funcionamento do cérebro. Nas décadas de 1970 e 1980, um psiquiatra britânico e sua equipe chegaram ao conceito que utilizamos hoje: existe uma síndrome de dependência, baseada em sinais e sintomas, observados em níveis variados de gravidade em qualquer dependente.
Entretanto, alguns questionamentos importantes continuavam sem uma resposta definitiva: Por que indivíduos conseguem fazer o uso ocasional da substância, sem prejuízo de seus compromissos e papeis sociais, ao passo que outros o fazem de maneira abusiva e desordenada? O que impede estes a parar de usar?
A neurobiologia investiga e busca elucidar de que forma as alterações provocadas no cérebro pela presença constante da droga se relacionam com estas questões.
Estas alterações tornam a substância psicoativa (droga) cada vez mais importante para o indivíduo, uma vez que o equilíbrio do seu organismo conta agora com a presença desta. Assim, quando seu uso cessar ou for reduzido, o indivíduo experimentará sintomas de grande desconforto (Síndrome de abstinência). A busca do prazer vai aos poucos sendo substituída pela busca de alívio destes sintomas, enquanto doses maiores de substância são necessárias para se alcançar os efeitos obtidos anteriormente com doses menores (Tolerância).
Importante ainda salientar o conceito de Compulsão, um desejo incontrolável de consumir a substância. Nos primeiros tempos de qualquer tentativa de parar de usar, o indivíduo está tomado por automatismos que o conduzem o tempo todo de volta ao consumo, ao passo em que sua capacidade consciente de suprimir esses desejos está enfraquecida e ele está altamente vulnerável frente a qualquer situação que o remeta ao uso.
Muitas vezes, o aspecto físico e psiquiátrico do indivíduo parece inalterado, mas certamente, ele possui algum grau de comprometimento, ou seja, seu cérebro sofrera todas estas e ainda outras mudanças e adaptações. Isso aumenta a dificuldade para se atingir a abstinência. Frequentemente, tais quadros são interpretados como de desinteresse, desonestidade, falta de caráter ou má vontade.
Ao invés disso, o indivíduo parece experimentar o que em filosofia prática recebe o nome de “Acrasia” (do grego akrasia, "não ter comando sobre si mesmo"). Trata-se da ação de uma pessoa que contraria seu melhor juízo sobre o que fazer em determinada situação. A acrasia pode se dar porque o sujeito não fez um juízo considerando todas as coisas, mas apenas um juízo baseado em um conjunto menor de considerações - o alívio imediato do desconforto causado pela fissura, por exemplo. Pode ainda haver um conflito entre a razão e a emoção, e isso tornaria possível uma pessoa acreditar que é melhor tomar esta do que aquela decisão, mesmo preferindo a segunda opção.
Quer seja considerando a base neurobiológica para a dependência química, quer seja considerando a interpretação filosófica, a questão moral ainda que presente em nosso dia a dia permanece distante da real discussão acerca dos desafios enfrentados pelos dependentes em busca de recuperação. Pode-se supor, porém que a desinformação só fortalece os estereótipos e aumenta o preconceito sobre o tema.
Autor: Matheus Leite Praça - Psicólogo, Especialista em Dependência Química UNIAD/UNIFESP - Em Recuperação de Longo Prazo

 

 

 

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